Agência Experimental divulga poemas mais curtidos no Concurso do JAÉ

Os dois poemas mais curtidos estarão na próxima Edição do JAÉ- Jornal da Agência Experimental

 

Por: Lizandra Santana

 

Na sexta-feira, 5 de julho e 2013, a Agência Experimental publicou no blog e na página do facebook uma postagem sobre a seleção de poesias, contos, crônicas e textos livres do ciclo acadêmico e comunidades de Salvador que integrariam a página do Território Livre do JAÉ- Jornal da Agência Experimental e seriam postados no blog da agência.

Os textos enviados ao nosso e-mail foram publicados na página do facebook para serem curtidos e compartilhados pelo público e a produção mais votada e compartilhada ganharia um prêmio. Uma vez que a quantidade de poemas enviados superara as nossas expectativas, decidimos premiar também o segundo lugar, e ceder espaço de divulgação no nosso blog aos três últimos poemas mais curtidos.

As produções textuais “Contemplação” e “Cupido e Psiquê” de Tiago Correia e Laércio Cardoso Jr., respectivamente, estão inclusas na próxima edição do Território Livre do JAÉ- Jornal da Agência Experimental, que tem circulação prevista para os próximos dias.

Delicie-se então com o poema de Thiara da Silva Jesus, intitulado “Carta a um certo alguém”, o poema de Diego Costa, “Até quando?”, e “DesaSSOSSEGO” de Lenon Sampaio Bispo.

Boa leitura e até o próximo concurso.

 

3. Thiara da Silva Jesus

Carta a um certo alguém…

Bom dia, Boa tarde ou Boa noite. (Pois não sei quando este alguém irá ler esta simples carta).

Minhas sinceras saudações! Espero que esteja tudo bem por ai. Sei que nunca nada está completamente perfeito, mas que pelo menos, um pouco do equilíbrio que aqui no mundinho vem habitando, pelo menos uma dosagem, uma pitada ou uma fresta, habite ai também.

Não sei quem tu és, a sua forma física, a sua idade, as atividades que pratica, com quem vive, mas imagino que seja como eu, como os que aqui posso ver. Refiro-me ao psicológico, ao jeito de agir, tens algo de semelhante. Mas não importa, quero apenas proferir-lhe algumas palavras, espero eu que elas sirvam para alguma coisa, nem que seja apenas para guardá-las na memória.

Mesmo não sabendo onde vives, acredito que acompanhas tudo que se passa ao redor do mundo (você vive no mundo? Bem, acho que sim).

Transformações, descobertas, alegrias, tristezas, perdas, ganhos, o mundo é feito disso tudo, mas a gente não vem dando o verdadeiro valor a isso, vivemos de forma desordenada, por vezes sem limites, e acabamos com coisas que nos primeiros tempos de existência eram de valor incomparável e insubstituível. Se tudo fosse igual ao passado, poderia não ter “graça”, não é verdade? Porém quando buscamos mudar, é por fins maiores e idealizamos um valor, e consequências absolutas para isso.

Não sei por quais momentos passou ou vem passando, mas posso imaginar que oscilaram entre coisas satisfatórias ou não. Mas, espera um pouco, você não é do mundo das fadas não né? Ah, mas também não tem importância, nesse também há coisas ruins, pois afinal de contas, o bem e o mal se fazem presentes em todos os espaços, reais ou não.

Vou ousar-me a fazer-lhe um questionamento, possa ser que nunca tenha pensado, e ficarei feliz se esse auxiliar a novas reflexões. Sim, vou a pergunta: você acredita que os valores são capazes de mudar as situações, consideradas talvez, anormais ou fora do comum? Sinto que não saberei o que responderá (mas tenho expectativa que algum dia receba a resposta desta carta), mas acredito que você creia que os valores, até os que estão sendo abolidos, façam o diferencial na mudança destas situações, que a humanidade vem presenciando.

E as fases da sua vida? Infância, adolescência, gente grande. Quer dizer você já é velho? (Bem, disso não tenho certeza). São etapas tão legais, né? Tantas coisas são criadas, conquistadas, realizadas… que marcam a nossa vida e que nos trazem grandes ensinamentos. Desejo que você viva cada segundo, jamais desista e acima de tudo acredite em você sempre, pois se não fizermos isso, quem fará?

As minhas simples e delicadas palavras despertaram novos pensamentos? Ficarei muito feliz se esta carta chegar a boas mãos. Apenas quero compartilhar o que penso, o que vejo, e descobrir se você que está ai (quem sabe do outro lado mundo) também está ligado na realidade, e vive! “viver e não ter a vergonha de ser feliz!” ♪

Um grande abraço (sei que sentirás) e agradeço pela paciência de ler esta carta, enviada por um alguém que você não faz a mínima ideia como é, mas digo para você, sou uma pessoa que sonha com um mundo mais igual, mais humano.

Bjos, de um alguém!

 

4. Diego Costa

Até quando?

O tempo passa, a tecnologia avança e as pessoas, cada vez mais, demonstram que perderam a noção da existência de dois Brasis. Sim, dois países completamente distintos que são transformados em um. Ou melhor, maquiados pra se transformar em um. Na verdade, o conceito mais apropriado deveria ser: Um pedaço que sucumbe dentro de uma república que ousa se intitular democrática.
O homem, que neste contexto é chamado de brasileiro, nem percebe a situação desesperadora de seus “irmãos”. Irmãos? Que irmãos? Só se forem adotivos ou ”de leite”, diante da cegueira (por opção própria, claro) ante ao que acontece com o povo do sertão, sobretudo em nossa região.
Confesso que esse papo de indignação com o “problema alheio” soa um tanto quanto hipócrita, mas falo com a propriedade de quem, uma vez por ano, viaja para regiões como Irecê e Araci e vê de perto a tristeza de familiares com a perda de boa parte do que é plantado e, consequentemente, dos animais. Falo com a propriedade de quem conhece pessoas vivendo em regiões como Juazeiro, que agoniza por causa da falta de chuva. Enfim, falo com a propriedade de quem assistiu no último dia 21, terça-feira, uma verdadeira aula de Jornalismo no Profissão Repórter. A história do povo sertanejo sendo contada sem filtros, sem maquiagem. Do jeitinho que realmente é.
Assistia a cada história com atenção e lembrava das estórias de Suassuna, do terceiro ato de A pena e a lei, da letra da canção criada pelo mestre Patativa. Todas as vertentes (literatura, cordel, canção) se encontram e apontam para uma situação grave de puro descaso.
Patativa revela em a triste partida a “solução” que a maioria dos sertanejos encontram para tentar fugir da seca, da fome e de todos os problemas que enfrentam no “Brasil em que vivem”. Vão em busca de um sonho na cidade grande. Grande! Do tamanho da decepção deles com o que encontram por lá. Geralmente, o desemprego ou o subemprego. O sofrimento só muda de lugar. E nós, no conforto do nosso lar, assistimos a quadros em programas dominicais como o “De volta pra minha terra” e tratamos a situação como pura e simplesmente “heroísmo do Gugu”. Olha só que bacana! Desculpem a ignorância, mas HERÓI, pra mim, é quem vive neste pedaço esquecido do Brasil e mesmo com dificuldades não perde a fé. É quem sai de sua terra sem garantia de nada e vai em busca de algo melhor pra sua família. Por fim, é quem prefere morrer de saudade a morrer de fome. O gênio Ariano Suassuna em A pena e a lei trata, em forma de sátira, de um problema muito sério. Sábio que é, utilizou-se de formas ‘mais leves’ (eufemismo dos bons!) para despertar em cada leitor um olhar crítico sobre uma região tão rica e, ao mesmo tempo, tão pobre. Sim, o sertão é rico! É uma riqueza que ninguém pode comprar. É a fartura de garra, fé, coragem e amor pelos seus.
A realidade é uma só! O povo sertanejo pede socorro! Até quando as autoridades vão fechar os olhos para a situação de calamidade com a seca? Até quando pessoas perderão suas plantações e animais? Até quanto viveremos como se nada estivesse acontecendo? Enfim, enquanto não encontrar respostas, continuarei perguntando: Até quando?

 

5. Lenon Sampaio Bispo

DesaSSOSSEGO!

DesaSSOSSEGO! Era deste modo que sentado ao quintal, à sombra de um coqueiro com folhas mortas, Zé Pedra Alta, balbuciava, ora palavras de raiva, ora gargalhadas e rosnos incompreensíveis. Carregava sempre um chapéu de couro sobre a cabeça e fumo de corda no bolso esquerdo da camisa. Não aparentava a idade que tinha, apesar dos cabelos prateados conquistados dia a dia.
Não morava nem perto nem longe de onde lhe conto está estória, Calixto. Antes que prossiga, tome tento, eu ouvi estória do meu cumpade, Doca Olho de Cobra – Permita lhe dizer, o melhor atirador e poeta que já vi por estas bandas do norte. Só enxergava de um olho e mesmo assim era capaz de acertar qualquer asa ou patas em velocidade de fuga, qualquer coisa que se mexesse; Mas se atenha no que vou falar. Minha intenção não é reproduzir estória do meu cumpade Doca Olho de Cobra, mas sim de seu Zé Pedra Alta. Só mencionei meu cumpade pra dar mais apresso de verdade.
Seu Zé era cumpade de Doca, ambos vaqueiros e poetas. Seu Zé tinha sete filhos, todos já bem crescidos e alimentados, soube até pouco tempo que um dos menino virou padre, fez esses cursos de teólogo, teologia. O mais velho é advogado na capital; menino de posses. O restante tomou rumo pra Son Paulo e nunca mais se arribou por aqui. Só a menina, Beatriz, que morava com seu Zé e Dona Maria – Mulheres direitas, que cuidavam do Zé parecendo que cuidando de uma criança.
Sem arrodeios! Num destes dias, de muito calor e pouca nuvem no céu, seu Zé não despertou para atividades na roça; Dona Maria o balançou, e ele disse – Me deixa mulher. Acordou ao meio dia, lavou a cara, pôs a camisa, e se sentou no tamborete dos pés mancos que ficava na cozinha; Não ligou o rádio e não reclamou do café que fumegava, embaçando aos poucos as lentes dos seus óculos. Dona Maria o olhava sem pronunciar única palavra, mas pensava no íntimo – será que o Zé desatinou, meu Jesus Cristo? Até o instante que ela rompeu o mormaço e silêncio que os arrodeavam por ali – Homi, o que foi, o café não tá bom? – seu Zé baixou a cabeça e murmurou baixinho – venha cá Maria – mais perto, mais… – Dona Maria perguntou – o que é que te apoquenta tanto, homi? Eu descobri Maria, eu descobri; Deus não existe! Maria no mesmo espaço de tempo reagiu – não diga uma blasfêmia dessas Zé – Tu fala isto porque teu passarinho, velho e despenado morreu. Mas eu ouvi seu último canto, não sei, não sei te explicar Maria, mas eu pude entender o que ele disse, ele disse que Deus não existia! E foi assim, Calixto, que o tal do Zé Pedra Alta começou o seu desatino.
Duas semanas depois chegou o advogado da capital e na outra semana o padre. Maria explicou aos filhos que o pai já não fazia as atividades da roça, acordava sempre tarde, passou a beber e comer a comida dos passarinhos, brincar e rolar no chiqueiro, falar coisas sem sentido; queimou a única bíblia que havia em casa, além de começar amizade com a menininha de fitas alaranjadas no cabelo; Ela devia ter uns nove anos; morava na casinha sem cerca do outro lado do roçado. A menininha das fitas alaranjadas talvez chamasse Carolina, Adelina, não lembro bem; Lembro que Doca sempre se referia a ela como a menina das fitas alaranjadas no cabelo. Pedra Alta passou a brincar todas as tardezinhas com ela; Ensinava-lhe noções sobre poesia, cores, gostos, desgostos, sobre as plantas e terminavam quase sempre o dia brincando com os animais do roçado. Logo depois da chegada dos filhos, o advogado atinou que aquilo poderia ser um caso de esquizofrenia; O filho padre não tinha dúvida que era espiritual.
Pouco tempo depois, seu Zé P.A. foi internado em manicômio na capital. Passou apenas quatro meses. Quando voltou para roça passou a falar pouco, quase nada. Não comentava mais nada sobre a existência de Deus, bebia o café, sempre calado, ouvia rádio sem ao menos dizer um por menor. A menina da fita alaranjada não apareceu mais. O pai havia proibido de ir à casa do Zé, depois que a menina começou a ter um comportamento estranho; Dizem que eram falas arrevesadas e profanas.
Dias depois, do retorno de seu Zé do hospital psiquiátrico, a menina dos laços alaranjados morreu. Dizem que morreu de tristeza; parou de frequentar a escola, não comia nem falava. Passou a ter febre alta todas às noites e, ao final de duas semanas morreu. Faleceu com um terço mastigado entre as mãos; Dizem que mastigava o terço porque sentia dores terríveis, outros, falavam que estava possuída pelo espírito mal. Mas ninguém soube explicar.
Seu Zé naquele dia parecia que sabia de algo. Estava agitado, não conseguiu dormir. Ficou três dias e duas noites sem dormir. Quando enfim conseguiu dormir, dormiu por dois dias consecutivos. Tome muito tento agora Calixto.
Quando Zé acordou, procurou a alpercata, mas os pés já não cabiam nelas, sentia pés, mãos e sua cabeça maiores; Perguntou a Maria quem era ela e o que ele estava fazendo ali naquela casa. Maria com doçura e paciência tentou explicar-lhe – Sou tua mulher homi, teu amor, tua rainha, lembra não? Zé, meio confuso foi até o quarto pegou lençol enrolou sobre o pescoço, buscou facão, foi ao roseiral, e como o nazareno, fez uma coroa de espinho. Assim como um rei, partiu correndo pelas veredas até chegar à praça principal do vilarejo, não conseguiu reconhecer ninguém. Alguns o cumprimentavam, outros apontavam e zombavam, mas ele só enxergava corpos sem forma definida, eram todos mistura de bicho e gente, as veredas pareciam andar sozinhas, sem se precisar caminhar. Bastante agitado Zé circulava pela praça como se fosse rei. Gritava palavras de ordem – O Deus de vocês não existe! – E o rei que vos fala!
Começaram a se ajuntar pessoas ao redor, num ímpeto de medo e coragem, Zé tentou sair da grande multidão que o cercava, mas foi empurrado de volta, por jagunços, com corpos de jiboia, que ali riam e se divertiam com todo o espetáculo. Tomado de medo, arribou o facão, e tentou abrir caminho de novo, desta vez o homem com rabo e patas de escorpião o segurou, acertando o ferrão na barriga do Pedra Alta. Sangrando no chão, viu todos aqueles corpos ali, mistura de gente e bicho. Deu o último suspiro, mistura quase incompreensível de som e sangue pronunciou – desaSSOSSEGO!

 

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