Entrevista: Professor Roberto Severino

José Roberto Severino, 50 anos, é o atual tutor da Agência Experimental de Comunicação e Cultura (AECC) e pesquisador e coordenador do Grupo de Estudos multidisciplinares em Cultura (Cult). Professor das disciplinas: Políticas da Cultura e da Comunicação, Cinema e História, Memória e Audiovisual, Comunicação e História e no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia. Tem graduação em História pela Universidade do Itajaí, Mestrado em História pela UFSC, Doutorado em História pela USP e Pós Doutorado em Políticas Culturais pela Università Degli Studi di Trento, UNITN, Itália. Ele foi entrevistado pela agenciadora Vanessa Avelar, falando um pouco sobre seu trabalho na AECC, a experiência adquirida ao longo de sua trajetória e expectativas para o futuro da agência.

Vanessa Avelar: Quando e como se tornou tutor da Agência Experimental de Comunicação e Cultura?

José Roberto Severino: Desde esse período eu cheguei e me aproximei do professor Giovandro Ferreira, que era o tutor anterior. Eu fiquei com ele em 2010 e a partir do final de 2011 eu me tornei tutor.

VA: O senhor ficou afastado por um tempo da Agencia Experimental e retornou em 2016.1…

JRS: Nesse período que eu estava fazendo pós doutorado. Foi por isso que eu me afastei das atividades de professor, docente. Fiquei apenas como pesquisador, fora do Brasil trabalhando no meu projeto de pesquisa. Mas eu não me afastei da Agência Experimental. 

VA: Agora em 2017, quais são as suas expectativas para essa nova fase da AECC?

JRS: A AECC é uma agência de comunicação que tem uma série de possibilidades e potências. Uma delas é da produção comunicacional em comunidades. Desde atividades de formação ligadas ao rádio, jornal e a comunicação comunitária até a produção de audiovisual. Então o objetivo é contribuir nesses processos de dizer de si mesmo a partir do audiovisual. Comecei essa experiência com a ACCS Memória e Identidade Audiovisual na comunidade, depois acabamos produzindo uma expertise de professores, eu, o professor Leonardo e a professora Simone, e desenvolvemos uma série de oficinas que habilitam os próprios membros da comunidade e os nossos estudantes a construírem juntos narrativas audiovisuais. Utilizamos esse recurso audiovisual com um foco na memória, que diz respeito a produções relacionadas a ancestralidade, a processos de musealização e patrimonialização, ao inventário comunitário para o registro de patrimônio imaterial. Como disse, o trabalho tem várias possibilidades, e uma delas foca na atividade docente fora da universidade.

VA: Uma das primeiras atividades após seu retorno está sendo a realização de um documentário sobre o terreiro Bate Folha, que completa 100 anos. Qual a importância deste documentário para a AECC e também para a sua trajetória como professor?  

JRS: Eu acho que a importância é muito grande, tanto pra Agência Experimental quanto pro Terreiro do Bate Folha, porque a oralidade é a dinâmica da memória nas comunidades tradicionais então ouvir as pessoas antigas da casa, contando sobre a suas experiências, suas vivências no terreiro, vai deixar uma história que de outra forma não seria conhecida ou seria conhecida parcialmente a partir da transmissão oral. Do ponto de vista do meu trabalho, essa é uma das coisas que eu gosto de fazer e que eu faço como profissional: ser um mediador e um facilitador de processos que lidam com o patrimônio imaterial, lidar com a memória, lidar com o interesse de dizer de si. Então pra mim é uma etapa importante também porque é um orgulho fazer parte da história de um dos terreiros mais antigos do Brasil, um dos mais antigos de Salvador, um lugar que tem muito de interessante do ponto de vista da preservação tanto do patrimônio cultural quanto do patrimônio ambiental. Então, eu acho que esse é o motivo que me levou a propor pra Agência Experimental um convite estendido pelo próprio terreiro. Eu acho é mais um aprendizado pros alunos, não é sempre que você entra num terreiro dessa forma, sendo recebido para contribuir na patrimonialização dessa memória, é uma experiência ímpar.   

VA: Quais outras atividade foram desenvolvidas após seu retorno?

Antes de começarmos a trabalhar no documentário nós fizemos uma série de reuniões tentando acionar os novos estudantes para a agência e fizemos um planejamento que envolvia os alunos organizarem um evento da AgenciAção, que é a recepção dos calouros, produzimos o Jaé, nosso jornal, e então começamos a pensar as atividades do Observatório das Culturas Populares. Foi quando fomos procurados pelo Terreiro Bate Folha, através de uma de suas representantes, a doutoranda Carla Nogueira. Ela sugeriu que nós fizéssemos uma visita ao terreiro e pediu nossa ajuda para a realização de um documentário que tratasse do centenário, mas que também de forma simultânea registrasse a história do terreiro a partir de depoimentos dos mais antigos.

VA: Na sua visão qual a importância da AECC para alunos, faculdade e sociedade?

JRS: Na verdade, para além da Agência Experimental, a minha visão pode ser estendida a qualquer estudante, que é a importância da Extensão Universitária. Acho que primeiro é de aprender a lidar com dinâmicas que são exteriores a universidade e superar os seus preconceitos, superar os seus limites, aprender a conviver com a diferença, ter uma experiência que tem muito de profissional no sentido de como fazer. Ir até à comunidade, ter que se comportar como um profissional. Então eu tenho pra mim que a extensão, e no caso esse trabalho que a Agência Experimental faz, contribui nessa formação mais plena que um aluno acadêmico de ensino superior deve ter. É uma forma de nós retribuirmos para a sociedade o que se faz na universidade, mas também de aprendermos na sociedade aquilo que não se aprende na academia. É uma troca.  

VA: Você já trabalhou com esse modelo de instância em outras faculdades?

JRS: Parte do que faço é o que eu fazia noutra faculdade, eu trabalha com História e curso de Comunicação, sempre busquei fazer essa aproximação, mas eu não tinha uma instância, tinha um centro de pesquisa era o nome, “Centro de Documentação e Pesquisa sobre Migração”, lá no Sul do Brasil. Nós entrevistávamos pessoas que tinham vivido a experiência da migração. Faziam parte do grupo estudantes de Jornalismo, de Publicidade e Propaganda e de História. Nós dávamos oficinas de rádio comunitária pra contar essas histórias. Em certa medida é a mesma experiência que eu trago, não criei nada muito novo. O que acontece é que aqui a Agência Experimental tem essa vocação da extensão propriamente dita.

VA: Durante esse processo como tutor da AECC na UFBA, o que o Senhor pode nos dizer que já aprendeu com essa experiência, desde 2010 pra cá?

JRS: Primeiro, que foi a partir dessa experiência que eu aprendi sobre Salvador, sobre a Bahia, que eu conheci as cidades do interior, conheci todas as mesorregiões, as capitais das mesorregiões, muitas das cidades do interior, Recôncavo. Me levou também a ter uma inserção maior na pesquisa a partir da pós-graduação e de levar experiência de extensão pra pós, que em geral não tem tendência para o fazer da extensão universitária, é muito focada na perspectiva da pesquisa. E o trabalho na Agência Experimental em especial, com os trabalhos do Observatório, me mostraram Salvador de uma forma muito nova. Salvador das periferias, a Salvador dos bairros, Salvador do Subúrbio Ferroviário que também passaram a fazer parte do meu repertório da cidade, que não existia. E agora o Bate Folha, porque tô indo num lugar também que não conhecia, a Mata Escura. Acabei tendo essa aproximação de um outro bairro desconhecido pra mim, tem sido um aprendizado permanente.

VA: De que forma a AECC está envolvida com a Produção Cultural? E também com o Jornalismo?

JRS: A Agência Experimental tem um lugar na Faculdade de Comunicação. Uma das principais atividades dela é uma atividade de produção, que é a realização da AgenciAção, um produto da Agência, realizado tanto pelos alunos de Jornalismo quanto pelos de Produção, mas com uma responsabilidade maior dos alunos de Produção na realização do evento.  O Jaé, ele é uma especialidade também da Agência, tanto os alunos tanto de Produção quanto de Jornalismo escrevem, mas sempre conduzidos pelos alunos de Jornalismo, até pela expertise que cada um tem na formação. Mas ao mesmo tempo a formação dos cursos é semelhante, e o núcleo dela é Comunicação. Esse núcleo é o que aproxima todo mundo. Então o trabalho de extensão que nós fazemos acaba sendo interessante pros dois lados, para as duas formações, fazer algo que vai ter um desdobramento na sociedade. Na verdade todo mundo aprende.

VA: O que o Senhor imagina sobre as expectativas de um aluno que está entrando e outro que está saindo da AECC?

JRS: Eu acho que a expectativa de quem entra é uma expectativa de experienciar a extensão universitária na sua plenitude e fazer parte de uma instância importante na universidade, é uma instância que tem bastante tempo. E de quem sai, eu acho que levar esse aprendizado do que viu, mas levar também o aprendizado do que ele deixou, porque é muito bom você passar por um lugar e deixar a sua marca num trabalho qualquer, num produto desses. Além disso, as pessoas se realizam, tem algo bastante subjetivo que é a mudança de ver o mundo, outras perspectivas e expectativas. Não prezar só o mercado duro mas perceber que também existe um outro mercado, relacionado com as comunidades.

 

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