Entrevista – Fabricio Araujo de Santana

Por Rebeca Almeida

A produção audiovisual passa por um período de intensa transformação, potencializada sobretudo devido a popularização das redes sociais. Assim, o debate sobre a preservação da memória e identidade de comunidades se faz necessário levando-se em conta essas novas possibilidades de produção e divulgação de áudio e vídeo. Nesse sentido e sendo a produção comunitária um dos focos da Agência Experimental, conversamos com Fabricio Araujo Santana, autor do artigo IDENTIDADE E PRODUÇÃO AUDIOVISUAL: As transformações nas práticas sociopolíticas em comunidades tradicionais.

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Gravações para documentário do Bate Folha / Foto: Elisa Correia

Santana integrou o Grupo de Pesquisa em Educação, Comunicação e Tecnologias da Faculdade de Educação (GEC/FACED), foi responsável pela Rádio FACED Web. Também foi membro do Grupo de Pesquisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS) no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom) da Faculdade de Comunicação (FACOM) da UFBA. Entre seus principais temas de interesse estão o audiovisual comunitário. Confira a entrevista na íntegra:

Agência Experimental: Qual a importância da produção audiovisual para a preservação da memória em comunidades?

Fabrício Santana: O Audiovisual busca a produção e registro de sons, imagens e vídeos. Considerando a necessidade de manter “viva” as tradições e hábitos culturais e sociais de comunidades é importante o uso de instrumentos para que a memória seja mantida para além da oralidade, até mesmo para que as próximas gerações tenham conhecimentos de suas raízes. Não que necessariamente eles passem a praticá-los, mas que possam refletir o quanto rico é o lugar em que se vive. E a produção audiovisual se configura como o principal instrumento para esses registros.

AECC: Você cita no seu trabalho que durante a década de 80 imaginou-se que a produção audiovisual seria grande responsável pelas mudanças sociais tão desejadas naquele processo de redemocratização. Como você analisa o papel da produção audiovisual nos dias de hoje?

F.B.: A produção audiovisual atual vai além do papel exercido dos anos 80. Parte dela ainda trabalha na perspectiva das transformações sociais, porém, acredito que os produtores sabem que apenas o seu produto não garante o alcance dos objetivos. O audiovisual acrescentou tudo que foi possível acrescentar devido à sua apropriação por qualquer um que queira, desde uma criança de 6 anos (os youtubers, por exemplo) até a mais longeva idade conseguem elaborar e produzir, vamos assim dizer, “as suas vontades”. Aquilo que queiram expressar e dizer, sobretudo de forma pública. Desde o “cara” mais rico que queira mostrar o seu estilo de vida até um militante que se dedica às causas sociais. As redes sociais na internet permitem uma grande circulação dessas produções. Por isso, muita gente produz e faz circular. Portanto, não há um papel bem definido, há possibilidades. E me parece que “quase” tudo está sendo possível.

AECC: Como você vê a popularização dos smartphones, o acesso a internet e a possibilidade de compartilhamento de vídeos em sites como o youtube com relação à produção audiovisual e a memória?

F.B.: O acesso amplo à esses dispositivos digitais possibilitou inúmeras produções, desde a mais simples àquelas que envolvam um grande número de pessoas. Isso é espetacular. As possibilidades de produção são as melhores como antes nunca vistos. A preservação da memória ganhou um excelente reforço. Estudantes, lideranças populares e comunitárias, movimentos sociais, etc, tem maiores chances de registrar e divulgar suas intenções. Assim como qualquer outra pessoa ou grupo (inclusive os xenófobos). A captação de sons e imagens não é mais difícil e tão complexa como nos anos 80. Não é mais necessário uma grande aparato de equipamentos. Basta um celular no bolso. Porém acredito que o debate prioritário não seja mais a produção em si (apesar da importância), mas os usos que se dão e onde estão sendo veiculados. A internet é importantíssima, mas a grande audiência, principalmente no meio rural, ainda é a TV aberta. E isso traz graves problemas sociais.

AECC: Quais os limites à produção audiovisual nos dias de hoje?

F.S.: A falta de democracia nos meios televisivos é um grande limitador para o alcance da produção audiovisual comunitária, por exemplo. O conteúdo regional, elaborado e editado, sob a ótica dos cidadãos da própria comunidade, não é visto na TV aberta. Apesar do compartilhamento de vídeos em plataformas on line, ainda precisávamos de outros espaços. Por isso vem a crítica de que nós não conseguimos nos ver na televisão. Nossas raízes e tradições, a nossa memória, não é “externada” na devida forma. Os conteúdos que visualizamos nos canais televisivos tradicionais é passível de variadas críticas. Democratizer os meios de comunicação é preciso!
Ou seja, a possibilidade de produção ampliou-se. A circulação também, porém de forma limitada às mídias sociais (canais no youtube, whattsapp, facebook, twitter, etc) e a canais televisivos de menor audiência (TV Educativa e alguns canais fechados). Apesar dessa crucial importância, poderíamos avançar mais e tornar as produções, aqui discutidas, práticas corriqueiras em todos os ambientes midiáticos.

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