Em dia histórico, a filósofa e ativista Angela Davis lota o Salão Nobre da Reitoria da UFBA

Texto de Mariana Gomes

No dia 25 de Julho, durante as comemorações do Julho das Pretas, organizado pelo Odara Instituto da Mulher Negra, a ativista e filósofa norte-americana Angela Davis fez conferência sobre o futuro da luta contra o racismo, apontou o papel da universidade nesse percurso e enalteceu a figura das mulheres negras como força política.

A espera
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A aglomeração na frente da Reitoria da UFBA aconteceu desde a manhã do dia 25 de Julho. Foto: Mariana Gomes/AECC

Nem a chuva atrapalhou a multidão que presenciou a palestra da professora Angela Davis, referência internacional na luta contra o racismo e o sexismo. A aglomeração começou desde às 7h da manhã na frente da Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

A conferência “Atravessando o Tempo e Construindo o Futuro da Luta Contra o Racismo” foi realizada em comemoração ao 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e Dia Nacional Tereza de Benguela, datas comemorativas que evidenciam como as mulheres negras lidam com o racismo e o machismo nos territórios brasileiro e latino americano.

A assembleia foi construída em parceria entre o Odara Instituto da Mulher Negra, com o Coletivo Angela Davis, o Núcleo de Estudos Interdisciplinar da Mulher (NEIM), a Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“A imagem dela circula ao redor do mundo como símbolo de liberdade e é desse lugar de liberdade que hoje falaremos. É historicamente significativo esse público nessa reitoria, majoritariamente jovem, feminista e negro”, declarou Ângela Figueiredo (UFRB), socióloga e uma das articuladoras da vinda da intelectual norte-americana.

A conferência
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A lotação do Salão Nobre da Reitoria da UFBA ultrapassou os 400 lugares do auditório e se estendeu a outras instituições de ensino, que exibiram a conferência com Angela Davis por meio de telões.  Foto: Divulgação/UFBA em Pauta

Atraindo pessoas do Brasil inteiro, em sua maioria mulheres negras, a Reitoria da UFBA foi completamente lotada, das cadeiras, a sacadas e corredores. Lu Vieira, graduanda em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), foi a primeira a chegar na reitoria para o evento. “Eu vim de Feira de Santana um dia antes para a casa de uma amiga. Como eu não sabia que horas abriria, cheguei às sete horas.  Às oito os porteiros chegaram e ficaram impressionados que já havia fila de espera”, explicou.

Josafá dos Santos, da Secretaria dos Gabinete da Reitoria da UFBA, que estava na recepção, foi um desses surpresos. “Toda semana nós temos palestras e debates aqui na reitoria, mas eu nunca tinha visto uma movimentação tão grande como essa, das pessoas se aglomerarem desde manhã cedo”, comentou.

Juliana Neri, graduanda em História, estava lá ao lado de sua mãe, Itania Neri, artesã e fotógrafa, desde às 10h30. A filha teve o contato com a obra de Davis fora da universidade, com algumas amigas, e indicou a leitura à mãe. Ambas destacaram a facilidade em ler as obras da filósofa. “Esse conhecimento precisa ser difundido e ela escreve de uma forma acessível, ultrapassando os muros da universidade”, mencionou Juliana.

Essa mesma acessibilidade se destaca nos momentos que a multidão pede autógrafos e fotos com a intelectual, a mesma Angela Davis que nos anos 70 foi presa pelo FBI, serviço de inteligência dos EUA, por seu ativismo enfrentando muitos obstáculos para se tornar uma referência acadêmica e de prática de mudanças políticas.

O futuro contra o racismo e o sexismo

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Na coletiva de imprensa, ao lado de sua intérprete e de representante da UFBA, Angela Davis fala sobre o papel da universidade, a prisão de Rafael Braga e o sistema carcerário. Foto: Mariana Gomes/AECC

Entidades dos movimentos negro e feminista estiveram presentes, assim como estudantes, pesquisadores e interessados no debate sobre o futuro das lutas contra o racismo e o sexismo. “Existe, geralmente, a pressuposição de que a forma mais avançada de feminismo negro é encontrada nos Estados Unidos. Isso não deveria se dar pelo entendimento de que nos Estados Unidos estamos mais avançados. Essa é uma visão colonialista e imperialista”. Declarou a filósofa norte-amerciana, que em muitos momentos elogiou a atuação política feminista e negra no Brasil, relembrando intelectuais do nosso país como Carolina Maria de Jesus, Luiza Bairros e Lélia Gonzalez.

Na coletiva de imprensa, Davis evidenciou o papel de espaços como a universidade contra formas de opressão. “É importante que a universidade apoie seus membros. É um espaço de luta contra o racismo e de construção de novos modos de produção de conhecimento que nos levam a perceber a conexão entre liberdade e conhecimento”. Ela ainda analisou e comparou o resultado das ações afirmativas nos Estados Unidos com as do Brasil. “Há décadas se discute sobre as ações afirmativas nos EUA com muito poucas consequências. Lembro-me de quando as discussões começaram aqui no Brasil, na Bahia, e agora podemos ver evidências concretas que garantem acesso a educação formal a populações historicamente excluídas”, declarou a professora.

“Acredito que para aqueles que são jovens nesse momento político específico são muito privilegiados de o serem, porque vocês estão experimentando a emergência de uma consciência que deveriam ter emergido há muitas gerações”. Parte dessa juventude foi representada na apresentação de abertura da conferência por meio do coletivo Slam das Minas, iniciativa baiana que estimula  a produção poética de mulheres.  “Esse é um papel que as mulheres negras sempre tiveram, em lutas contra instituições racistas e de repressão. Estamos prontas para novos modelos de liderança”, completou a ativista.

Angela Davis

Angela Davis é filósofa e um dos ícones da luta pelos direitos civis. Na juventude foi uma das fundadoras do Partido dos Panteras Negras e integrou o Partido Comunista. A partir disso, desenvolveu um pensamento crítico e pioneiro de como as questões raciais, de classe e de gênero estão na base das relações sociais em países com passado escravocrata, ao exemplo dos Estados Unidos e do Brasil.

Apenas em 2016, seus livros começaram a ser publicados no Brasil, pela editora Boitempo. Hoje “Mulher, Raça e Classe” e “Mulheres, Cultura e Política” tem sua versão em português.

Atualmente os esforços de Davis estão voltados aos estudos sobre como o sistema carcerário é modelo e reflexo das heranças escravocratas, como se integra às questões de gênero e quais suas influências nas políticas de segurança pública ao redor do mundo.

Confira a conferência na TV UFBA.

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