O subúrbio pelas lentes do projeto Zuruba

A revolução no estigma de “área marginalizada” promovida pelo audiovisual

Por: Annandra Lís

O nome por trás do projeto Zuruba Artes é o de Fanny Oliveira. Uma jovem mulher de apenas 21 anos que tenta levar o subúrbio ferroviário para o mundo através das suas lentes. Filha única, mora com a mãe no bairro de Paripe, onde cresceu e teve também as primeiras inquietações sobre o seu lugar no mundo. Fanny conta que começou a pesquisar sobre Paripe para descobrir suas origens e acabou conhecendo alguns movimentos que fazem a manutenção da história do bairro. Daí surgiu mais uma inquietação: Produzir sobre.“A sociedade nos divide em categorias para nos oprimir. Então vou colocar categorias aqui, mas categorias que vão me levar à frente. Sou mulher, preta, brasileira, nordestina, soteropolitana, suburbana, filha de empregada doméstica e pedreiro e diversas outras categorias que me encaixo. Só que agora eu sei dizer o que me trouxe até aqui e como eu me encaixei nisso historicamente.” Nos conta a idealizadora do projeto que começou à partir do reconhecimento do seu lugar de fala.


Usando das ferramentas que dispunha, ela começou. Formada em audiovisual pela Oi Kabum (antiga escola de arte e tecnologia de Salvador) e formanda em filosofia pela Universidade Estadual da Bahia, Fanny usa a câmera para revolução. O tema do seu trabalho de conclusão de curso (A relação do cinema com o viés evolucionário) resume o projeto que realiza com o Zuruba Artes. No TCC, ela escreve como o audiovisual era utilizado para promover uma massificação e como essa massa pega o caminho contrário e utiliza do cinema para agir como um princípio revolucionário.

Zuruba Artes é sobre a tradição que Fanny aprendeu com sua família. Sobre resgatar o que o bairro tem de manifestações artísticas para através das fotografias e audiovisual fazer com que o registro dessas manifestações se propaguem, utilizando a internet como ferramenta de distribuição do conteúdo. A característica do seu trabalho foi porta de entrada para que Fanny fosse escolhida como uma das protagonistas do capítulo Direito à Cidade da série Diz Aí, do canal Futura. Larissa Fulana de Tal, da Rebento Filmes, que produziu a série, conta que foi um encontro fantástico de cabeças e de olhares sobre o mundo, já que Fanny além de fotógrafa e videomaker, é filósofa e mulher preta como ela. A escolha de Fanny para participar do episódio foi acertiva. “Roubamos ela pra gente. Do Diz Aí para a vida. Me encantou muito esse olhar filosófico de Fanny em relação ao contraste da fotografia, enquadramento, o lugar que se mora. Têm sido encantador.”

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Cortejo à Iemanjá em Tubarão em 2017

Um dos trabalhos que Fanny acompanha com o Zuruba Artes é o A Corda, um grupo de samba de roda da comunidade de Tubarão. Ela está trabalhando em um documentário sobre o grupo para mostrar para o mundo que o samba de roda não é só uma expressão do recôncavo baiano. A idealizadora do A Corda, Natureza França, ressalta a importância do acompanhamento do projeto Zuruba Artes para dar visibilidade à questões da periferia, identidade cultural do gueto e a grupos desses territórios marginalizados. “As identificações (de mulher suburbana) fizeram com que a gente se encontrasse, com que a gente seguisse produzindo e se fortalecendo. Hoje eu penso que Fanny é um fortalecimento. É mais um fio forte que o A Corda tem e que nós também somos forças para Fanny.“. “Eu sou uma entre várias pessoas que estão tentando fazer algo. É exatamente essa união de forças que eu brinco com Natureza. Ela escolheu um nome muito massa para o grupo. Porque A Corda é esse monte de fios emaranhados, às vezes muito fininhos que parecem tão frágeis, mas que juntos constituem algo muito forte.” Completa Fanny.

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II Encontro de Samba de Roda em Tubarão

Outro trabalho que também está no forno é um audiovisual para dar voz aos escritores do bairro. Aproveitando que a população tem a câmera e a internet nas mãos para mostrar que o subúrbio ferroviário de Salvador vai além do que a mídia sensacionalista dita. Entendendo que as problemáticas estão lá e que não se deve parar de falar sobre elas. Mas a missão da militância do projeto Zuruba Artes é construir a narrativa de uma forma diferente. Apontando esses problemas como algo que é desenvolvido por um sistema e que existe solução sim, contrariando quem diz que aquela população é um caso perdido.

Um comentário

  1. Muito importante esse projeto, mostrar as coisas boas do gueto, talentos, cultura. Deixa explícito que mesmo com a falta de políticas públicas e de apoio, o gueto tem suas lideranças, pessoas que demonstraram sua consciência política e produzem ações como essa, que mostram o a produção de cultura local e o potencial de homens e mulheres, negras e negros todxs revolucionárias (os).

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