Se expressar é incomodar

As musas do Centro Juvenil de Ciência e Cultura

Por Annandra Lís

 

Musas: 1. Nome das deusas gregas da arte (pintura, escultura, música, etc.).
              2. Inspiração para poesia; referente à idealização da beleza.
As musas do CJCC (Centro Juvenil de Ciência e Cultura) estão muito distante do padrão historicamente cultuado: Mulheres, gênero fluído, homoafetividade, periferia e melanina são algumas das palavras que melhor  as caracterizam. Muza é o nome da banda que Isabel, Vitória e Sara criaram juntas para cantarem sobre as suas realidades. Sim, é Muza com Z, para caracterizar ainda melhor essa fuga dos padrões.

“A Banda Muza surgiu de inquietações nossas sobre quem somos e o que representamos. Em todas as músicas que cantamos buscamos falar sobre nossa realidade. O nome, Banda Muza, surgiu a partir das deusas musas, deusas gregas que eram deusas das artes, incluindo a música. E para questionar todo um contexto social que diz que uma mulher “musa” é a que mais se aproxima dos padrões… a mulher branca, heterossexual, classe média e magra. Nós não nos encaixamos nisso, mas porque não poderíamos ser ‘musas’ também?” O CJCC através das aulas de música oferecidas aos jovens, proporcionou o encontro de três corações que sozinhos não tinham força para rebater os ataques do mundo. Deu a oportunidade desses corações cantarem juntos suas inquietações. A banda Muza é uma harmonia de mulheres atentas. “Tínhamos que fazer daquela união um grupo de apoio. Daí surgiu o nome da banda…” continua Isabel Ramos.

 

muzas
Ensaio Banda Muza


As integrantes da banda se conheceram em momentos diferentes, mas todas debaixo do mesmo teto. O CJCC foi o ponto de encontro e fortalecimento dessas mulheres*. “Nós começamos a andar muito juntas e conversar muito sobre assuntos como nossas vivências e feminismo. A ideia da criação da banda foi do professor de música (do CJCC), ele sugeriu que montássemos um grupo. Demorou um pouco até realmente ‘sair do papel’. Daí surgiu a primeira ideia de nome, como seria o formato de show e o quais músicas queríamos tocar” Isabel Ramos ou Ramosia (como assina seus poemas), é uma das integrantes da banda. Ela vê o grupo como uma fonte de fortalecimento entre as integrantes e ouvintes, já que, em sua maioria elas cantam músicas como PUTA – Mulamba; Triste louca ou má -Francisco el Hombre, Disk denúncia -Nina Oliveira e Gabi da Pele Preta e Maria da Vila Matilde do álbum premiado pelo Grammy Latino 2016, interpretada por Elza Soares.

Apesar de reconhecer o papel que assume na música e em seus poemas, Ramosia não arrisca intitular-se militante. “Eu sempre coloco muito de mim nas artes que faço, sempre falo do que sinto e do que passo. Mas nem sempre falam diretamente sobre militância. Acho muito importante e sempre tento deixar claro, que aquilo [que produzo] sou eu e se eu estou, por exemplo, falando de amor, eu tô falando do amor que eu sinto, o amor por outra mulher. Não me considero militante porque acho que a carga que o nome carrega é pesada demais pra mim, me sentiria muito pressionada a falar sobre tudo e sempre expor o que eu acho… Sempre ter que ir à luta. Eu acho que só por existir eu já incomodo muito e por não me esconder ou tentar me adequar, eu já incomodo o dobro. Então o tempo inteiro me dizem que tem algo de errado comigo e isso é muito cansativo, eu não consigo o tempo todo bater de frente com quem diz que eu tô errada por ser quem sou e se eu me considerasse militante, acho que me sentiria pressionada a isso. Do mesmo jeito que não gosto de dizer que sou empoderada, acho que são palavras muito fortes e eu não consigo segurar esse peso ainda.”


“Eu acho que só por existir eu já incomodo muito e por não me esconder ou tentar me adequar, eu já incomodo o dobro.” Isabel Ramos.

 

A banda Muza é um panteão de musas que, mesmo sem perceber, militam usando a arte como ferramenta transformadora. Por enquanto, os covers são o canal entre as integrantes e suas ouvintes, mas, quando as músicas autorais estiverem devidamente regularizadas, é inquestionável que impactarão ainda mais às cultuadoras da boa música e da boa fé.  

 

 

 

*Uma das integrantes se considera como gênero fluido

Um comentário

  1. Puts, muzas, muzenzas, mulatas, mulheres todas na mesma pegada de vida….e viver e crescer pra incomodar sim, incomodar pra modificar o que é tão óbvio nesse sistema opressor, e digo que nascemos para revolucionar os corações, e revolucionar sem incomodar não tem graça! Não é mesmo Annadra Lís?

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